Pedaladas em alta.
Empresas e prefeitura investem em ações para incentivar o uso de bicicletas.
Por Branca Nunes16.04.2008
Empresas e prefeitura investem em ações para incentivar o uso de bicicletas.
Por Branca Nunes16.04.2008
Leo Feltran
Luciene Oliveira, no bicicletário do Shopping Frei Caneca: troca de roupa antes do trabalho.
Moradora do bairro de São Mateus, na Zona Leste, a vendedora Luciene Souza de Oliveira perderia uma hora e meia no trânsito se fosse de carro para o trabalho, no Shopping Frei Caneca.
Caso optasse pelo transporte público, a situação seria ainda pior. Ela passaria duas horas dentro do ônibus. A solução foi pedalar. Há seis anos, Luciene começou a driblar os congestionamentos pilotando uma bicicleta. Faz o trajeto entre sua casa e o shopping em 45 minutos. "Venho com uma roupa mais confortável e me troco assim que chego à loja", conta. "Mesmo quando chove, é só colocar uma capa e levar uma toalhinha na bolsa." Ela faz parte de um grupo estimado em 300 000 paulistanos que diariamente usa a bicicleta como meio de transporte.
Embora os ciclistas não sejam vistos como prioridade quando se discutem soluções para o trânsito – a ampliação das ciclovias não foi sequer incluída entre a série de medidas anunciadas recentemente pelo prefeito Gilberto Kassab para tentar amenizar os horrores do tráfego –, alguns órgãos públicos e principalmente empresas privadas começam a prestar atenção nesse grupo. A seguradora Porto Seguro, por exemplo, inaugurou um sistema de empréstimo inspirado nos projetos Velib, de Paris, e Bicing, de Barcelona. Clientes da companhia podem usar as bicicletas disponíveis em sete estacionamentos da rede Estapar.
"O alcance ainda é pequeno, mas mostra que a bicicleta está deixando de ser apenas um instrumento de lazer", afirma o cicloativista Arturo Alcorta, que assessorou a Porto Seguro na montagem do projeto. Bicicletários foram instalados também em alguns estacionamentos da Estapar. Os segurados pela Porto Seguro desfrutam o benefício gratuitamente. Os demais clientes pagam 2 reais por doze horas. Algumas empresas vêm implantando bicicletários e vestiários para seus funcionários. O publicitário João Guilherme Lacerda gasta vinte minutos para ir de casa, em Perdizes, ao escritório, no Butantã. "Poderia ir de táxi, mas prefiro a bicicleta porque é mais rápida e mais saudável."
Os ciclistas paulistanos dispõem de 19 quilômetros de ciclovias dentro de parques. Nas ruas, ficam apenas 4,5 quilômetros. "Até o fim do ano, vamos inaugurar mais 19,2 quilômetros", diz Laura Ceneviva, coordenadora do Grupo Pró-Ciclista, departamento responsável pelo sistema cicloviário paulistano. Desde 1990, uma lei municipal prevê a instalação de ciclovias em todas as novas ruas da cidade. Não é o que acontece. "A bicicleta é ideal para distâncias inferiores a 5 quilômetros", afirma Eric Fernandes, coordenador do Instituto de Energia e Meio Ambiente. "A partir disso, o carro e o transporte público levariam vantagem, porque são mais rápidos." São Paulo inverteu essa lógica. Por aqui, nos horários de pico, os automóveis atingem a velocidade média de 22 quilômetros por hora. É a mesma velocidade de um ciclista amador.
Em dois anos, somente 20% da meta de ciclovias em São Paulo foi construída.
21/04 - 12:07 - Juliana Simon, do Último Segundo.
21/04 - 12:07 - Juliana Simon, do Último Segundo.
SÃO PAULO – Em 2006, a Prefeitura de São Paulo já apontava o incentivo ao uso de bicicletas como uma das medidas para aliviar o trânsito e a poluição causados pelos carros. Em maio daquele ano, a Secretaria Municipal do Meio Ambiente (SVMA) divulgou que havia condições “de imediato” para a implantação de 104 km de ciclovias, ciclofaixas e vias de tráfego compartilhado. Até março deste ano, no entanto, somente 23,5 km foram implantados, segundo números da própria secretaria.
Para ciclistas e pedestres, São Paulo está preparada só para carros.
Segundo a assessoria da secretaria, o atraso na implantação das ciclovias se deve, principalmente, ao fato de que a construção “não depende somente da iniciativa da prefeitura, mas também de estudos aprofundados sobre onde as vias podem ser instaladas e da liberação de verbas”.
Em maio de 2006, representantes de seis secretarias, entre elas a de Transporte, Infra-estrutura Urbana e Obras e Meio Ambiente, e integrantes da da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) e da SPTrans criaram o Grupo Executivo Pró-ciclista.
Na época, a Secretaria do Meio Ambiente informou que dispunha de R$ 2,3 milhões para usar em projetos pró-ciclismo. No primeiro ano foram investidos R$ 700 mil e a secretaria não soube informar quanto foi gasto em 2007.
Até agora, foram instaladas sete ciclovias no Parque do Ibirapuera (5,5 km), Parque Anhanguera (2,7 km), Parque do Carmo (8,2 km), Parque Cemucam (2,6 km), na Avenida Faria Lima (1,3 km), na Avenida Sumaré (1,4 km) e na estrada da Colonia, em Parelheiros (1,8 km). Em 2007, foram instalados mil paraciclos (estacionamentos para bicicletas) nos parques municipais.
Há mais cinco projetos em elaboração. A implantação de ciclovia de 3 km no Parque Linear, no Itaim Paulista; uma ciclovia de 15 km no Butantã prevista para ser entregue em 2010; 3,3 km de ciclovia na antiga Estrada de Perus; 11,5 km de ciclofaixa em Ermelino Matarazzo.
A prefeitura promete 12 km de ciclovia na Radial Leste, a ser entregue até o final do primeiro semestre deste ano. O projeto custa R$ 9 milhões e, segundo a secretaria, os recursos serão repassados ao Metrô, que está executando a obra.
A prefeitura promete 12 km de ciclovia na Radial Leste, a ser entregue até o final do primeiro semestre deste ano. O projeto custa R$ 9 milhões e, segundo a secretaria, os recursos serão repassados ao Metrô, que está executando a obra.
Segundo a secretaria, “quando tudo o que está em desenvolvimento for entregue, São Paulo terá mais de 50 km de ciclovias implantadas”. Metade do que foi prometido em 2006.
Para ciclistas e pedestres, São Paulo está preparada só para carros
21/04 - 12:08 - Juliana Simon, do Último Segundo.
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SÃO PAULO – Apesar da construção de novas ciclovias e da revitalização de algumas calçadas, as pessoas que trocaram os carros por bicicletas e pelo trajeto a pé afirmam que São Paulo ainda não está preparada para os “transportes alternativos”.
Com 370 mil adeptos, segundo estimativa do Ibope/Nossa São Paulo, o ciclismo aparece como uma das principais opções para fugir dos congestionamentos e da busca por alternativas mais saudáveis e menos poluentes de transporte. No entanto, com 23,5 km de ciclovias implantadas até agora, a cidade está longe do ideal para a prática.
“Se em nosso País houvesse um respeito pela vida não seria necessário ciclovias ou ciclofaixas para que as pessoas pudessem pedalar com sensação de segurança. Como não é a realidade da nossa cidade, sou a favor da construção de vias específicas, isso poderá encorajar muitos motoristas a deixarem seus carros em casa e optar pela bicicleta”, diz André Pasqualini, que percorre, em 40 minutos, 13 km para ir da sua casa, no Campo Limpo, até seu trabalho, na Vila Olímpia.
Para o carioca João Guilherme Lacerda, que mora em São Paulo há quatro meses, “nem mesmo o Rio com mais de 140 km de vias segregadas está preparado para os ciclistas”.
Locais adequados para estacionamento também é outro problema. Willian Cruz, que também é ciclista, acredita que é necessário que o comércio e serviços forneçam infra-estrutura para receber o ciclista. “Um simples local seguro para estacioná-la e com suportes para prendê-la com uma corrente, de preferência com um banheiro por perto para que seja possível trocar de roupa, já resolve o problema do ciclista”, diz.
“São Paulo possui no momento zero km de ciclovias, pela própria definição do Código Brasileiro de Trânsito do que é uma ciclovia. Hoje, temos trajetos que ligam o nada ao lugar nenhum, dentro de parques”, diz Waldomiro Souza.
Para os ciclistas, o que faz mais falta é a impossibilidade de integração da bicicleta com outros meios de transporte. Willian Cruz, também ciclista, afirma que “o ideal é integrar as bicicletas ao fluxo, em vez de segregá-las em ciclovias”. Para ele, isolar os ciclistas do trânsito faz os motoristas acreditarem que as ciclovias são o único local onde elas devem trafegar, “hostilizando e colocando em risco os ciclistas quando estiverem em vias que não dispõe de ciclovia”.
Integração também para pedestres
Eduardo Daros, presidente da Associação Brasileira de Pedestres (Abraped), também aponta a integração como principal carência da cidade. Em março, Daros encaminhou ao prefeito Gilberto Kassab, um pedido para que houvesse a restauração do corredor 9 de Julho – Santo Amaro.
“Hoje, é extremamente penoso para os pedestres - proibitivo para os portadores de necessidades especiais - transitar a pé entre as Avenidas 9 de Julho e Paulista, galgando ou descendo rampas íngremes, particularmente em dias chuvosos ou de muito sol”, afirma.
Eduardo cita Curitiba como exemplo de integração. Com os chamados “ônibus metronizados”, com pontos de parada cobertos, a cidade possibilita que o trajeto do pedestre até seu destino seja feito com segurança e com conforto.
"Até atravessar uma rua é difícil por aqui", diz Willian Cruz. Ele usa como exemplo a travessia a pé da Avenida Juscelino Kubitschek. “Dependendo do ponto onde tenta atravessar, você tem que fazer umas quatro travessias para conseguir continuar o seu caminho, ou atravessar metade e andar um ‘pedação’ pela ‘calçadinha’ que fica entre as pistas para poder terminar a travessia”, diz.
“Manchas” de revitalização.
Nos últimos anos, a prefeitura implantou em alguns pontos da cidade projetos de revitalização das calçadas, tanto para ampliá-las, como para a troca do piso. As obras na Avenida Paulista, ainda não concluídas, e na Avenida João Cachoeira, no Itaim Bibi, são alguns dos exemplos.
Para Daros, os projetos são “bem-vindos”, mas “insuficientes”. “Na Paulista temos uma bela calçada, mas nas ruas próximas, como a Augusta, por exemplo, tudo continua igual”, diz. Para ele, o que existe são “manchas de revitalização”, concentradas, principalmente, nas áreas nobres da cidade.
“As gestões ainda não encararam o problema totalmente. Não adianta realizar projetos isolados um dos outros. Deve-se ter, antes de tudo, uma rede de melhorias em calçadas, transporte público e nas vias para carros e bicicletas”, afirma.
Vantagens dos “alternativos”.
Para ciclistas e pedestres as vantagens principais de deixar de usar os carros são os benefícios para a saúde do indivíduo e da cidade, que já sofre com congestionamentos e poluição. “Um ciclista a mais é um carro a menos, ou menos uma pessoa para sobrecarregar os transportes públicos da cidade. Ou seja, além de chegar mais bem disposto ao trabalho, o ciclista não atrapalha a vida de ninguém, seja no espaço limitado das ruas, ou dentro dos ônibus e trens, diz João Lacerda.
André Pasqualini aponta o aspecto de convivência social que se alcança fora dos veículos. “De bicicleta conseguimos conversar com outros ciclistas e até mesmo motoristas, interagimos com a cidade, nos aproximarmos da realidade o que acaba gerando um sentimento de paixão por ela”, diz.
Apesar da falta de “preparo” da cidade e de muitos de seus habitantes para deixar o carro em casa, Waldomiro Souza diz que “pedalar em São Paulo é dar as costas a quem você não confia. Mas sigo pedalando, quixotescamente.”
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