domingo, 21 de agosto de 2011

Bacalhau holandês

“Bacalhau holandês”. Era o que se lia na lateral da caixa arrastada pela rua. Ao longe se via a pequena velocidade e a grande dificuldade com que a caixa era conduzida. Quem olhava deduzia que era de grande peso. O semblante sofrido e o grande esforço realizado pelo homem confirmavam tal dedução.

O ônibus se aproximava a grande velocidade do conjunto “homem-caixa”. O motorista resmunga algo incompreensível. Os passageiros dormem. O homem-caixa se esforça para ir mais rápido para a calçada. O cobrador excomunga o homem-caixa. Os passageiros dormem. O homem-caixa se esforça ao máximo para tirar a caixa da rua. O motorista xinga o homem-caixa. Os passageiros dormem. O cobrador esbraveja palavrões. O homem-caixa chorando num esforço sobrehumano se aproxima do meio fio. Os passageiros dormem. O motorista buzina e xinga mais uma vez o homem-caixa, para tirá-lo da frente do ônibus. Os passageiros dormem.

Então num último esforço desesperado o homem-caixa se curva sobre a caixa, erguendo-a alguns milímetros do solo e a arremessa o mais longe que suas forças permitem em cima da calçada, e por alguns milímetros apenas, o ônibus não atropela o homem-caixa.

O motorista e o cobrador proferem, aos berros, palavrões que são encobertos pela buzina ininterrupta do ônibus, acompanhados de fortes solavancos do ônibus, advindos de uma última tentativa desesperada do motorista em atropelar o homem-caixa (sim, eu disse: “…última tentativa desesperada do motorista em atropelar o homem-caixa…”), com grande estardalhaço e barulho nos distanciamos do homem-caixa, que chora e soluça de desespero pelo terror que passou fugindo de um ônibus “desgovernado”. Os passageiros já não dormem mais.

Se você já andou de ônibus na cidade de São Paulo, pode concluir sozinho se esta história é verídica ou não, mas por via das dúvidas, na próxima vez que estiver atravessando a rua e ouvir uma buzina de um ônibus, não pense duas vezes, largue a sua “caixa” e salve-se no abrigo seguro de uma calçada.

Brenê

domingo, 19 de junho de 2011

Assassino virou profissão... Só no Brasil...

"...Em toda profissão tem ética..." Quem falou que assassino é profissão? Esse é realmente o retrato dos ADEVOGADOS do Brasil? Será que a OAB não vai se pronunciar? Quem será o mais FDP, o bandido que matou o estudante, o ADEVOGADO que defende a "ética" do assassino, ou o filho da puta que fez essa lei de merda??? Em que o cara mata, se entrega, confessa que matou e ainda vai jantar em casa com os manos dele... E ainda querem me convencer de que o mundo é dos bons... Que o futuro será melhor... Para quem para esses filhos da puta que matam, roubam, estupram, defendem a "ética" do profissional asssassino??? Puta país de merda... Povo de merda... Políticos de merda... ADEVOGADOS de merda...
 

terça-feira, 8 de março de 2011

Vontade X Grana

Eu sou um grande entusiasta do ciclismo, me lembro de ter uma “magrela” desde que eu era pequeno, a primeira foi uma “dobravelzinha”, que tinha um parafuso no quadro, onde havia uma dobra, para poder guardá-la com mais facilidade.

Lembro-me de pedalar com meu irmão na rua de terra onde fica até hoje a casa da minha mãe no interior, como ele é menor que eu sua bicicleta também era, a dele não dobrava como a minha.

Lembro de comprar pneus para a minha “dobrável”, tirar os pára-lamas (para ficar mais radical), lembro do tempo passar e ela ficar pequena e desgastada, até que eu não coubesse mais nela.

Logo depois vieram as “caloi cross” vermelhas, tinham um pneu mais grosso na frente, até hoje não sei o motivo, eram iguais, a minha e a do meu irmão. Então quando já não cabíamos mais nas caloi cross, vieram as caloi “cruiser”, com 10 marchas.

Como eram iguais e nós éramos adolescentes personalizamos ambas de maneiras diferentes, cada um com a sua bicicleta diferente, mas igual.


Andamos muito nelas, quantas idas e voltas até Cabreúva, Porto Feliz, Salto, para a Serra do Japí foram apenas duas, nunca chegamos até São Paulo, uma pena, porque a vontade permanece até hoje.

Então um dia toca o telefone, roubaram a casa da minha mãe, o que levaram? As “magrelas”, que ódio, que raiva, tomara que dêem de cara com uma jamanta… O tempo foi passando e a raiva se dissipando, veio a mudança de escola, a faculdade, o cigarro, a correria de São Paulo e as “magrelas”, caíram no esquecimento, uma pena, lembro-me sempre de estar com uma ao meu lado, com um baita sorriso no rosto, pedalando, com o vento batendo na cara, fazendo força pra subir e me “largando” nas descidas.

Então veio o final da faculdade, desemprego, falta de grana, vontade de mudar alguma coisa na vida, então decidi largar o cigarro, tinha que dar um jeito de economizar uma grana com transporte, já que já havia decidido largar o cigarro, podia tomar outra providência para “salvar” mais dinheiro, mas o que?

De repente me veio à mente aquela imagem: “baita sorriso” no rosto, “vento batendo na cara”, era isso! Comprar uma bicicleta. Seria a 4ª geração de “magrelas” que me pertenceria.

Dinheiro na conta, começo a pesquisa, materiais, componentes, tamanhos, marcas modelos. Como não tive contato com o meio ciclístico por mais de nove anos, estava por fora das “melhorias tecnológicas” mais recentes, então tive que me informar para não levar gato por lebre.

Por quase três meses procurei por uma magrela que me agradasse e ao mesmo tempo coubesse na minha condição financeira, olhei em sites, lojas, no interior e em São Paulo.


Achei! Preta! Como eu gosto! Faltava ir buscar, será que eu já vou buscar e volto pedalando? Espero para estreá-la em uma pedalada mais “nobre”? Quanta emoção! Comprei a minha bicicleta…

Emoções de criança se misturam a sentimentos novos, como medo de pedalar nas ruas violentas de São Paulo, como será que as pessoas vão reagir a um ciclista inexperiente na rua?


Como eu vou reagir ao trânsito violento de São Paulo? Nesta altura do campeonato a família já reagiu com desconfiança e insegurança, antecipando a visão de uma pessoa da família pedalando pela cidade.

Fui de carro buscar a magrela e uma vez que chuviscava no dia, voltei com a bike no carro… Ainda não foi desta vez que estreei a magrela.

Eu morava a 12 quilômetros do lugar onde pretendia fazer a pós-graduação, e nesta época eu só fazia estágio, então o dia da grande estréia foi indo para lá… Ao contrário do que eu pensava, foi a pedalada mais difícil da minha vida, uma verdadeira loucura, carros passando a mil por hora ao meu lado, os freios dos ônibus zunindo na minha orelha, e o cansaço então, parecia que meu coração ia sair do peito e os pulmões arfavam desesperadamente por oxigênio, achei que nunca mais iria pedalar na minha vida…

Quando cheguei ao estágio, estava todo dolorido, suado, respirando com muita dificuldade, demorei quase duas horas para percorrer os míseros 12 quilômetros que separavam o estágio da minha casa, e mais outras duas horas para me recompor para voltar para casa, o dia no estágio foi totalmente improdutivo, nada deu certo, foi uma verdadeira desgraça…

Mais outras quase duas horas de pedalada e eu estava em casa novamente, mais dolorido, mais suado e muito mais cansado. Neste dia tomei um banho, comi alguma coisa e fui direto para a cama, de tão cansado que eu estava…

As primeiras duas semanas de idas e vindas com a magrela foram muito cansativas e doloridas, mas compensavam pela sensação de bem estar que me forneciam ao final do dia e durante o estágio.

Após as duas primeiras semanas eu me acostumei a pedalar para ir ao estágio, e comecei a arriscar novos caminhos e novos destinos, e em pouco tempo ia a praticamente todos os lugares com a magrela…

Após uns três meses de uso da magrela como meio de transporte, eu economizei o suficiente para pagar a bicicleta. Na época eu rodava de 30 a 50 quilômetros diários, pode não ser muito, mas economizava um monte de transportes.

Saia para pedalar com uma turma nas noites de quinta-feira, adorava cada esforço para vencer uma subida, em algumas semanas chegava em casa mais exausto do que em outras, e mesmo assim a magrela sempre fazia parte do meu dia-a-dia, mas a sensação de bem-estar sempre me acompanhava.

E ao final das contas basta apenas vontade para vencer algumas barreiras e desafios e descobrir um modo novo de se locomover pela nossa cidade, quanto ao dinheiro, ele será bem aplicado em outro lugar, que não o meio de transporte…


Brenê

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Estranho

Em pleno feriado de 7 de setembro, passeando com a minha família, vivi uma cena no mínimo estranha.

Com a cidade vazia, o trânsito estava maravilhosamente bom, nada de demorar duas horas para andar três quilômetros, horas e horas de trânsito para andar poucos quilômetros.
Passeamos o dia todo e passamos no máximo 15 a 20 minutos percorrendo os trajetos de um ponto a outro da cidade.

Ao final do dia, percorríamos o caminho de volta à nossa casa, me deparei com um farol fechado, mas nada de estresse, o caminho estava livre, fui me aproximando vagarosamente da faixa de pedestre como sempre faço nas madrugadas, apesar de ser plena luz do dia.

O farol foi demorado, de modo que eu cheguei à faixa de pedestre antes do farol abrir e parei. Ao puxar o freio de mão, escutamos um som conhecido, o toque de chamada de rádio de um telefone NEXTEL, nos olhamos e começamos a procurar a fonte do som, uma vez que nenhum de nós dois temos um NEXTEL, neste momento o rapaz que fazia malabarismo com bolinhas de tênis em frente ao nosso carro parou com os malabares, correu até a mochila na calçada e retirou um celular da mesma. Até aqui nada de estranho, o que ouvimos depois é que foi muito estranho.

O rapaz falava com uma voz do outro lado da linha:
- Não Betão*, claro que eu vim… Vô ficar aqui até de noite…

E a voz do outro lado respondeu alguma coisa que não ouvimos. E o rapaz prosseguiu:
- Mas eu tô aqui, pode vir ver… Vô ficar aqui até escurecer sim…

E a voz fala alguma coisa. E o rapaz prossegue:
- Não Betão, eu tô aqui, amanhã eu venho também, pode deixar…

Neste momento o farol abriu e eu saí com o carro, não sei o que aconteceu com o rapaz ou com o Betão, mas fiquei com um pensamento na cabeça.

O malabarista de rua tem um chefe? Ele tem registro em carteira? A empresa fornece celulares para os funcionários? Será que ele tem plano de saúde? Benefícios? Qual será o salário? Qual será o horário de trabalho? Ele trabalhava no feriado, será que ganhou hora extra?

Quantas implicações essa cena pode ter?

Brenê

*Nome fictício, uma vez que não me lembro o nome que o rapaz mencionou ao telefone.