terça-feira, 8 de março de 2011

Vontade X Grana

Eu sou um grande entusiasta do ciclismo, me lembro de ter uma “magrela” desde que eu era pequeno, a primeira foi uma “dobravelzinha”, que tinha um parafuso no quadro, onde havia uma dobra, para poder guardá-la com mais facilidade.

Lembro-me de pedalar com meu irmão na rua de terra onde fica até hoje a casa da minha mãe no interior, como ele é menor que eu sua bicicleta também era, a dele não dobrava como a minha.

Lembro de comprar pneus para a minha “dobrável”, tirar os pára-lamas (para ficar mais radical), lembro do tempo passar e ela ficar pequena e desgastada, até que eu não coubesse mais nela.

Logo depois vieram as “caloi cross” vermelhas, tinham um pneu mais grosso na frente, até hoje não sei o motivo, eram iguais, a minha e a do meu irmão. Então quando já não cabíamos mais nas caloi cross, vieram as caloi “cruiser”, com 10 marchas.

Como eram iguais e nós éramos adolescentes personalizamos ambas de maneiras diferentes, cada um com a sua bicicleta diferente, mas igual.


Andamos muito nelas, quantas idas e voltas até Cabreúva, Porto Feliz, Salto, para a Serra do Japí foram apenas duas, nunca chegamos até São Paulo, uma pena, porque a vontade permanece até hoje.

Então um dia toca o telefone, roubaram a casa da minha mãe, o que levaram? As “magrelas”, que ódio, que raiva, tomara que dêem de cara com uma jamanta… O tempo foi passando e a raiva se dissipando, veio a mudança de escola, a faculdade, o cigarro, a correria de São Paulo e as “magrelas”, caíram no esquecimento, uma pena, lembro-me sempre de estar com uma ao meu lado, com um baita sorriso no rosto, pedalando, com o vento batendo na cara, fazendo força pra subir e me “largando” nas descidas.

Então veio o final da faculdade, desemprego, falta de grana, vontade de mudar alguma coisa na vida, então decidi largar o cigarro, tinha que dar um jeito de economizar uma grana com transporte, já que já havia decidido largar o cigarro, podia tomar outra providência para “salvar” mais dinheiro, mas o que?

De repente me veio à mente aquela imagem: “baita sorriso” no rosto, “vento batendo na cara”, era isso! Comprar uma bicicleta. Seria a 4ª geração de “magrelas” que me pertenceria.

Dinheiro na conta, começo a pesquisa, materiais, componentes, tamanhos, marcas modelos. Como não tive contato com o meio ciclístico por mais de nove anos, estava por fora das “melhorias tecnológicas” mais recentes, então tive que me informar para não levar gato por lebre.

Por quase três meses procurei por uma magrela que me agradasse e ao mesmo tempo coubesse na minha condição financeira, olhei em sites, lojas, no interior e em São Paulo.


Achei! Preta! Como eu gosto! Faltava ir buscar, será que eu já vou buscar e volto pedalando? Espero para estreá-la em uma pedalada mais “nobre”? Quanta emoção! Comprei a minha bicicleta…

Emoções de criança se misturam a sentimentos novos, como medo de pedalar nas ruas violentas de São Paulo, como será que as pessoas vão reagir a um ciclista inexperiente na rua?


Como eu vou reagir ao trânsito violento de São Paulo? Nesta altura do campeonato a família já reagiu com desconfiança e insegurança, antecipando a visão de uma pessoa da família pedalando pela cidade.

Fui de carro buscar a magrela e uma vez que chuviscava no dia, voltei com a bike no carro… Ainda não foi desta vez que estreei a magrela.

Eu morava a 12 quilômetros do lugar onde pretendia fazer a pós-graduação, e nesta época eu só fazia estágio, então o dia da grande estréia foi indo para lá… Ao contrário do que eu pensava, foi a pedalada mais difícil da minha vida, uma verdadeira loucura, carros passando a mil por hora ao meu lado, os freios dos ônibus zunindo na minha orelha, e o cansaço então, parecia que meu coração ia sair do peito e os pulmões arfavam desesperadamente por oxigênio, achei que nunca mais iria pedalar na minha vida…

Quando cheguei ao estágio, estava todo dolorido, suado, respirando com muita dificuldade, demorei quase duas horas para percorrer os míseros 12 quilômetros que separavam o estágio da minha casa, e mais outras duas horas para me recompor para voltar para casa, o dia no estágio foi totalmente improdutivo, nada deu certo, foi uma verdadeira desgraça…

Mais outras quase duas horas de pedalada e eu estava em casa novamente, mais dolorido, mais suado e muito mais cansado. Neste dia tomei um banho, comi alguma coisa e fui direto para a cama, de tão cansado que eu estava…

As primeiras duas semanas de idas e vindas com a magrela foram muito cansativas e doloridas, mas compensavam pela sensação de bem estar que me forneciam ao final do dia e durante o estágio.

Após as duas primeiras semanas eu me acostumei a pedalar para ir ao estágio, e comecei a arriscar novos caminhos e novos destinos, e em pouco tempo ia a praticamente todos os lugares com a magrela…

Após uns três meses de uso da magrela como meio de transporte, eu economizei o suficiente para pagar a bicicleta. Na época eu rodava de 30 a 50 quilômetros diários, pode não ser muito, mas economizava um monte de transportes.

Saia para pedalar com uma turma nas noites de quinta-feira, adorava cada esforço para vencer uma subida, em algumas semanas chegava em casa mais exausto do que em outras, e mesmo assim a magrela sempre fazia parte do meu dia-a-dia, mas a sensação de bem-estar sempre me acompanhava.

E ao final das contas basta apenas vontade para vencer algumas barreiras e desafios e descobrir um modo novo de se locomover pela nossa cidade, quanto ao dinheiro, ele será bem aplicado em outro lugar, que não o meio de transporte…


Brenê